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Reprodução do prefácio do livro
O Brasil vive uma tragédia
Editorial

A Humanização das Políticas Públicas como fundamento
para Solução da crise Brasileira” publicado em 2006,
proveniente da monografia elaborada no Curso de Psicossomática Contemporânea
Em tempos de tamanho sentimento popular de impotência
frente às políticas públicas praticadas em nosso país, que muitos traduzem
como apatia diante de tantos desmandos e corrupção, Nivaldo Pereira _
jornalista, psicólogo e comunicador _ oferece-nos neste livro, através de um
pensamento brilhante e abrangente, uma contundente proposta de superação
desta realidade, pela humanização das políticas públicas para a solução da
crise brasileira, dentro do princípio do indivíduo como unidade ativa e das
comunidades como célula mater do campo desta intervenção, em visão
sistêmica. Devolve-nos potência, aponta-nos caminhos e soluções inesperadas,
mas certamente eficazes, desnaturaliza falsas impossibilidades.
O autor
fala-nos da premência de propostas que ajustem vida individual, coletiva e
econômica para uma saída possível da crise da sociedade contemporânea, e por
conseguinte da crise brasileira, dentro de uma visão de homem inteiro em
suas múltiplas dimensões, das quais não se exclui, evidentemente, a sua
dimensão política. Através de uma visão sistêmica que integra reflexões
históricas, filosóficas, socioantropológicas, psicossomáticas, e vivências
pessoais e profissionais, Nivaldo Pereira surpreende-nos ao apontar
revolucionariamente o óbvio, intencionalmente oculto por séculos,
dizendo-nos: “ [...] a economia não deve sobrepor-se ao social, uma vez que
pertence a um sistema constituído de seres humanos em interdependência
[...]” (p.53). E em seguida cita Capra : “[...] a economia é um sistema vivo
composto de seres humanos e organizações sociais em contínua ação entre si e
com os ecossistemas circundantes de que nossas vidas dependem [...]”. Deste
modo, observa-se que o primeiro ponto de originalidade e eficácia da
proposta do autor reside exatamente em corrigir a atual visão de antagonismo
entre a economia, o social e o ambiental, como entidades apartadas e
excludentes. Esta visão equivocada gerou modelos de políticas públicas
igualmente excludentes e apartadas, a partir de um pensamento mecanicista
que setorializa e compartimenta o ser humano individual e coletivo em
questões econômico-financeiras de um lado, e, questões sociais e ecológicas
de outro, dissociadamente.
A proposta de humanização das políticas públicas
no Brasil, de Nivaldo Pereira, centra-se portanto, já em seus fundamentos
iniciais, em reintegrar estas visões compartimentadas, potencializando as
mudanças, “dentro da idéia de organização popular para a participação da
população na gestão e controle do atendimento às suas necessidades básicas,
em processo de ruptura com sua alienação histórica.”(p.67) Há um vazio
imenso, hoje, no Brasil, de uma participação popular organizada nos rumos de
nosso país. Os poucos grupos que a detém, por uma já consolidada experiência
de mobilização social, representam parcelas do interesse nacional, como o PT
(Partido dos Trabalhadores ,intrinsecamente ligado aos sindicatos desde a
sua fundação, o que imprime marcas sobre a sua cultura e suas ações, e a
alguns movimentos sociais como o MST (Movimento dos Sem Terra) e outros, de
defesa de minorias, tendo já representado a esperança de um projeto ético
para o país. Exatamente por sua larga experiência em mobilização popular, é
aquele que, mesmo mortalmente ferido pelos escândalos de corrupção,
autoritarismo e violência que vêm comprometendo irremediavelmente a sua
imagem ética, permanece detendo voz, potência e domínio sobre uma imensa
maioria da população que ainda não descobriu como se expressar, se
aglutinar, construir representatividade e buscar soluções. Sem a organização
da população em defesa da sua cidadania e de algum controle dos rumos de
nosso país, o crime organizado impõe-se com facilidade, com aliança e
infiltração cada vez maior nos poderes públicos. Encontramo-nos oprimidos.
Sem potência à vista. Sem voz. Acuados. Adoecendo. Morrendo, a vida humana
banalizada e destituída de sentido.
A sociedade brasileira engatinha na
busca de potência: quer se mobilizar, mas desconhece os instrumentos para
fazê-lo de forma organizada e eficaz. Encontra-se, assim, paralisada,
aparentemente apática, mas na realidade tomada de uma angústia e indignação
a que não consegue dar escoamento produtivo. As estatísticas de busca de
atendimento nos hospitais públicos, inoperantes, em face de políticas
públicas desumanamente ineficazes, apontam um crescimento absurdo do
adoecimento da população. Há empregos, mas não há políticas públicas na área
da educação para o desenvolvimento de talentos e competências para as novas
exigências dos perfis profissionais do mercado globalizado, resultando em um
grande número de pessoas sem perspectivas de trabalho, mesmo a médio e longo
prazo, ao lado de outros sem emprego pela falta de oferta em campos
tradicionalmente ligados à engenharia e construção civil, estagnada há
décadas. Nivaldo Pereira aprofunda esta questão, ao falar da progressiva dessocialização, e do abalo da identidade e da virilidade que atingem a
grande massa de desempregados em nosso país. E do imenso medo, compartilhado
por muitos, de 7 verem a si e aos seus familiares e amigos nesta situação.
Estamos em um país sufocado pelo medo. A segurança básica, primeira
necessidade de qualquer ser humano, está completamente desatendida e sob
ameaça permanente. Diz-nos o autor (p.39): “Buscar uma solução para
esta crise de poder, que afeta a cidadania e o estado de direito no Brasil é
o desafio.” Neste livro, oferece-nos as possibilidades de solução e os
caminhos, e os fundamenta ideologicamente, na distinção feita por Martin
Buber dos conceitos de gemeinschaft e gesellschaft, referentes à evolução
histórica das comunidades, apontando a necessidade de retomarmos as
gemeinschaft, dos vínculos fraternos em busca dos objetivos comuns e das
decisões partilhadas por todos, em ação ética.
A proposta de Nivaldo
Pereira, apresentada nesta obra de estratégica importância para a nossa
realidade, é a de um brasileiro com ampla experiência em campos diversos do
nosso país, que busca com honestidade e brilhantismo uma participação
popular centrada no indivíduo como unidade ativa, e que exclua de saída os
descaminhos da perversão, do utilitarismo partidário, da exploração e
manipulação de uns por outros. Este é seu pressuposto básico ideológico,
centrado na solidariedade e na busca de potência, abrindo-se mão dos
interesses egoísticos pelos interesses coletivos, sem perversão. Sem este
pressuposto, não há o que fazer. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2006. Eunice Verçosa
Rocha Delamônica - Livre- Docente em Psicologia (UGF). Mestre e
Especialista em Educação(IESAE/Fundação Getúlio Vargas).
Professora-Convidada do MBA - Management/EPGE - Fundação Getúlio Vargas, na
área de Gestão de Pessoas e Comunicação Interpessoal. Coordenadora Acadêmica
da Pós-Graduação em Psicossomática Contemporânea/UGF. Psicóloga com atuação
nas áreas acadêmica, clínica/hospitalar, escolar e organizacional desde
1973. Gerência de Consultoria em Psicologia e Psicossomática, com projetos
de humanização nas áreas da saúde e educação.
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